Quem é Jaime Ramos?

Jaime Ramos é um inspetor da Polícia Judiciária da cidade do Porto. É um histórico, já, da polícia. Entrou nos anos 70 ainda para a polícia como agente, foi subindo na estrutura, foi responsável pela secção de homicídios, vive na cidade do Porto e é um burguês da cidade do Porto. Eu acho que ele, ao contrário da generalidade dos detectives que têm problemas com álcool, com drogas, com casamentos anteriores, uma série de distúrbios, digamos, na sua vida afetiva, familiar, Jaime Ramos é um bocadinho o contrário. Porque, por um lado, não tem vida familiar. Tem uma namorada, que vive no mesmo prédio, dois andares acima, e portanto a sua vida afetiva fica reduzida um bocadinho a essa simulação de um casamento sem casa em comum. Por outro lado ele é uma espécie de representante da velha burguesia do Porto, da velha pequena-burguesia do Porto. Cética, pessimista, ligeiramente conservadora, mas que nunca se escandaliza com nada, e portanto, para quem tudo o que acontece no mundo é tão humano que não suscita grandes reparos.

Ele é também um homem cético em relação à sua própria investigação. Quer dizer, guarda os segredos. Não comunica muito os resultados do seu trabalho. Tem uma equipa de pessoas que ele foi formando, de que ele se foi habituando a gostar, e em alguns casos parece que é a sua própria família. Na falta de uma família tradicional, essa é a sua família. Por isso ele vive numa das zonas mais populares da cidade, que é muito perto da estação de Campanhã. É um pequeno apartamento onde ele reúne livros espalhados por todo o lado. São livros que ele lê no inverno, porque Jaime Ramos só lê no inverno. Durante o verão não se sente disponível para ler. De resto é um gastrónomo, um gastrónomo mas não um gourmet, não é gourmet de nenhuma maneira. É um gastrónomo, um cozinheiro. Fuma charutos. E começou a fumar charutos a partir do momento em que começou a haver máquinas para distribuição de cigarros. Ele então mudou de estratégia porque não quer comunicação com ninguém. Nem com a própria máquina de distribuição de cigarros.

Há dois ou três acontecimentos que o marcam para sempre. Um é a sua infância, passada numa aldeia do Douro. O outro é a guerra, a Guerra Colonial, que ele passou na Guiné, donde resultou também um ferimento que o acompanha por toda a vida, e que é uma surdez crónica. Que tem alguns momentos que lhe são extremamente favoráveis, porque ele deixa de ouvir. E isso deixa-o muito contente, o facto de não ouvir os outros. De resto, nos livros, ele visita um bocadinho os lugares de eleição da sua cidade. Há um bar na Foz do Porto, que é o bar onde ele passa a maior parte das suas noites, e depois faz as peregrinações de um pequeno-burguês da cidade do Porto. Vai a Espanha comprar charutos, vai comprar peixe a Espinho, dá passeios pelo Minho, e basicamente é um portuense a viver no Porto como uma ilha dentro de outra ilha.

Detective Jaime Ramos by Francisco José Viegas