Palavras

Alegria

«A alegria dos alegres é uma doença como qualquer outra, uma espécie de vício que desordena a vida e a falsifica. Gente alegre todo o dia. Gente que ama profunda e desorganizadamente a vida. Não tinha opinião sobre isso, mas reconhecia que era preciso ter algum ressentimento contra a vida, em algum lugar, em algumas horas, em certos dias. O bom humor permanente é um atrevimento de medíocres.» (Longe de Manaus)




Amor

«Até amar pela primeira vez, quando a gente pergunta o que é uma bússola, o que é um mapa, o que é verdadeiramente amor sem sexo, o que é sexo sem amor, até essa altura uma pessoa pensa que tem de aprender a amar, e então desenha corações no tronco de uma amendoeira, descobre palavras cheias de claridade, anêmona, manga, laranja, falésias, azul-marinho, goiaba, papel de arroz, pérolas, água gelada, gardênia, prata, coração desenhado no tronco de uma amendoeira, calçada de basalto.» (Longe de Manaus) «Jaime Ramos, era parte daquele casal que dançara um tango em toda a perfeição e que ela, a mulher, era Rosa, que, se não fora o amor da sua vida, era por certo a companhia que o escolhera para ser acompanhado durante todos aqueles anos de melancolia em festas de casamento que ele nunca estaria disposto a organizar para si mesmo.» (Um Crime na Exposição) «O amor que não se esquece logo, provavelmente nunca se esquece. Perdura como uma traição – e ele conhecia o significado da palavra.» (O Mar em Casablanca)




África

«O império, o coração do império. Alferes Ramos, velho alferes Ramos: tu próprio queres regressar à Guiné, onde a morte esteve próxima de ti, adormecendo no teu ombro, muito amiguinha, onde a vida estava suspensa de um fio, onde havia o cheiro que não esqueces. Fugiste da Guiné e olha agora o que te acontece: África vem ter contigo, vêm aí as províncias ultramarinas, uma a uma, o caminho-de-ferro de Benguela e o porto de Moçâmedes, a linha-de-ferro da Beira chegando ao Malawi, o sisal, o café e o algodão, a Companhia Colonial de Navegação e o paquete Infante Dom Henrique, o paquete Niassa e João Maria Tudela cantando "Lourenço Marques", cada inquérito persegue-te com o cheiro de África e os que dizem "ah, o cheiro de África", mas nunca estiveram diante dos teus cheiros de África – o da merda, o da pobreza, o do lixo, o das coisas apodrecendo ao ar livre nos subúrbios, o dos mortos acumulados no mato, esquecidos, rendidos. Merda para África, adeus Guiné, serás sempre Portugal.» (O Mar em Casablanca)




Árvores

«Lembro-me de negrilhos altíssimos, de Inverno, encostados aos muros (e das árvores suas contrárias: as cerejeiras e as amoreiras, que eram o esplendor do Verão), escuros, nas estradas em redor da aldeia, por exemplo, na que seguia para o alto da serra. Jaime Ramos, Rosa adormecida ao lado, dormindo desde que atravessaram o Rio Sabor na direcção de Foz Côa. Não é uma terra de negrilhos, acrescentou ele, é já terra quente, mas aquele vale sempre fora espantoso, cheio de amoendoeiras, eucaliptos e giestas, oliveiras, albufeiras isoladas, presas às colinas.» (Longe de Manaus)




Biografia

«Diniz Ramos chegou ao Brasil no dia 22 de Outubro de 1948. A data não teve importância mas ele conservava-a como um marco nos anais de família e nunca a esqueceu ao longo dos anos. Não havia razão nenhuma para que a lembrasse. Não conhecera Diniz Ramos: as fotografias mostravam um homem alto, com bigode e óculos de aros escuros, de ombros largos e vestindo um fato completo, cinza, sorrindo cada vez mais (era esta a sua impressão) à medida que tudo ia ficando mais ténue, em vias de desaparecer. Conservam-se algumas cartas dos anos seguintes e enviadas de São Paulo. Eram envelopes amarelos ou amarelados que nunca tinham sido rasgados e a que nunca foram retirados os selos, tucanos, árvores da Amazónia, araras, rios, o retrato do Imperador, o rosto de Juscelino Kubitschek, barcos, Santos Dumont e os primórdios da aviação, índios seminus. Diniz Ramos era o primeiro emigrante da família e, na escola, Jaime Ramos ouvia falar do Brasil como a terra prometida de onde regressaria rico, velho, com bastantes filhos e criados negros, onde os homens vestiam casacos brancos e havia demasiadas mulheres.» (Longe de Manaus)




Comunismo

«Durante a revolução, antes da revolução, ele lembrava esse tempo. Com essa idade e uma adolescência por cumprir, Jaime Ramos caminhou onde se podia caminhar, onde a sua vida era mais frágil, ouviu os discursos em todas as reuniões, frequentava assembleias, conhecia as palavras de ordem, as canções, os nomes, as inflexões, a estranha coragem daqueles camaradas que estavam permanentemente vestidos para a revolução, que tinham sempre uma palavra, tanto de conforto como de rigor, e que participavam em todos os momentos da sua vida. Em Outubro de 1973 ele disse pela primeira vez a senha da sua nova vida: "Sou comunista." Tenho uma fé, estou protegido, transporto uma palavra em chamas, ela incendeia tudo, deixa labaredas dentro de casa, destrói as minudências, as dúvidas, sobretudo as dúvidas e os pormenores, atravessa a minha biografia de um lado a outro, "sou comunista".» (O Mar em Casablanca)




Derrota

«Entrou na casa de banho e espremeu a bisnaga de creme no pincel de barbear, espalhou a espuma na cara, metodicamente. Sabia que era uma das melhores maneiras possíveis de acalmar a sensação de perda e de derrota que o invadia naquele instante.» (Um Céu Demasiado Azul)




Família

«Marcava reuniões de trabalho para a hora de almoço em restaurantes com área de fumadores e de onde não tinham sido banidos nem a aguardente branca gelada nem os ecrãs de televisão sem som. Isaltino e José Corsário levavam os computadores, se fosse necessário, e ele atribuía a despesa a investigações correntes, certo de que os contribuintes não iriam notar o desfalque de uma ou duas refeições por mês. Os outros membros da equipa, escolhidos de entre os que não tinham querido investigar assuntos fiscais ou banditismo tecnológico eram periodicamente admitidos nessas reuniões. Olívia, Jacinto, Dulce e Vasco estavam nesse número e, para todos os efeitos, eram a sua família mais próxima.» (O Mar em Casablanca)




Homens

«A inteligência dos homens é meio babaca. Meio triste. Muito ridícula. Porque depois você descobre que são babacas, tristes, ridículos. E que é tudo teatro muito mau.» (Longe de Manaus)




Idade

«Depois, um dia, uma tarde, uma noite, falaram sobre a idade – a idade não é o tempo que passou; é o tempo que resta.» (O Colecionador de Erva)




Identidade

«Ao fim destes anos entendo aqueles que nunca quiseram voltar, voltar a isto, quatro estações do ano, lama de Trás-os-Montes, chuva do Porto, sotaque da Beira Alta, miséria no Alentejo, sargentos reformados, repartições de finanças, empregados de escritório, gestores públicos, cantores rasca. Os portugueses que não querem voltar a Portugal, lembra-te deles, alferes Ramos, porque são fodidos, miseráveis ou heróis que nunca se rendem, vão de um país a outro sem passarem por Portugal. E o ódio que lhe têm, a Portugal, ou o desprezo, a indiferença. A impressão que lhes faz.» (Longe de Manaus)




Mar

«Daquele lugar via-se o mar, mesmo em frente. Uma ondulação baixa, permanente. A crista das ondas, muito branca, fria, riscando o corpo negro das águas. Havia uma estrada, ao fundo e à esquerda, que contornava as rochas e se dirigia para os antigos bairros de pescadores depois comprados a preço baixo por gente que queria viver diante do mar e transformou a curva do rio em zona de luxo, um palnisfério de novas burguesias – mas apenas um luxo intermédio, assaltado por noites de tempestade quando o mar subia pelas rochas e chegava à estrada; um luxo que já não era romântico, como o fora há dez ou vinte anos, antes de haver promotores imobiliários falidos e de a cidade se separar, de novo, dos subúrbios – mas a estrada estava lá, menos solitária, menos suja. E estava também o pequeno ancoradouro, debaixo da curva que escondia os rochedos, o último ponto em que o rio era rio e passara a ser engolido pela água salgada do oceano, escura e opaca.» (O Mar em Casablanca)




Medo

«Aos cinquenta anos, a nostalgia fere como uma lâmina quase mortífera, as lembranças magoam mais do que libertam. Acontece a todos – dedicamos às lembranças uma espécie de medo ou de apreensão, porque, ao albergá-las e ao alimentá-las, podemos perder tudo de um minuto para o outro. Sobretudo o equilíbrio.» (Um Crime Capital)




Melancolia

«Devia existir um sítio assim, uma lei que permitisse a existência de sítios assim, não um paraíso, nem uma circunstância afectiva, nem uma fuga instantânea, um abrigo, porque os abrigos são sempre temporários. Um lugar insignificante registado num mapa de estradas que o separasse de toda a memória, dos desenlaces forçosamente violentos ou controversos daquilo que assusta na noite e nos torna pesados.» (Morte no Estádio)




Memória

«Ele passava os dias sentado, surdo, envolvido por essa imagem alaranjada, de terra leve e alaranjada que nunca o abandonara: nuvens alaranjadas percorrendo todos os ângulos de visão, todos os pontos cardeais, todos os objectos tingidos por aquela nuvem que devorava a memória e apenas lhe devolvia coisas sem importância aparente: corpos de mortos estendidos na berma da estrada de Missirá, o rosto de uma enfermeira negra num hospital de Bissau, um maço de antigos cigarros Sagres pousado na mesa-de-cabeceira (ele recorda aquela embalagem vermelha, o escudo, as quinas, as armas de Portugal), a primeira manhã em que andou a pé pela Praça do Governador, o primeiro passeio de barco até ao ilhéu dos Pássaros, um crepúsculo onde não chegavam emboscadas, nem colunas incendiadas, nem ruído das operações especiais, nem cartas da família.» (O Mar em Casablanca)




Mulheres

«Ah, as mulheres, um músculo móvel no tornozelo, a palpitação de uma veia, um calor, uma imperfeição de que se aprende a gostar, adorável imperfeição – a de um risco na pele, uma gordura a mais, uma dobra na pele, um sinal de preguiça, de mau-humor, uma pequena rouquidão ao acordar, a forma como acordam, uma penugem na barriga, ou por baixo do ouvido esquerdo, aquele que fica mais próximo, ah as mulheres.» (O Mar em Casablanca) «Adela: "Gostava de cavalgar seminua ao longo do pântano. Gostava de aguardentes fortes. Gostava de roupa de homem. Gostava de nadar no rio. Gostava de saber coisas escandalosas das esposas dos funcionários do Chaco. Gostava de sexo, gostava do comércio e do contrabando, gostava das noites em que os mosquitos se erguiam dos lagos quase ressequidos.» (O Mar em Casablanca) «Amar as feias para ser amado pelas bonitas. Jaime Ramos pensava nisso quando olhava para a fotografia de Esther Graydon, o seu cabelo demasiado loiro para ser verdadeiro, com madeixas platinadas que caíam sobre os ombros maduros ou, às vezes, escondendo os olhos claros que nunca saberia dizer se eram castanhos ou verdes, porque não reparava nos olhos. Vou perguntar-lhe o seguinte, senhor inspetor: em que coisas repara numa mulher? "Nos olhos." Mentira. Os olhos, sim, estão no quadro, mas há mais. A boca. As mãos. Os dedos. Os braços. "O que valoriza mais numa mulher?" Os olhos. O riso. A inteligência. O humor. Os olhos de Esther Graydon, portanto: as sobrancelhas arqueadas que pareciam desenhadas a carvão cinza deixando uma pequena ruga permanente a separá-los. (…) Em que coisas repara primeiro numa mulher? Seja sincero. Nos seios. Nas mamas. Nas mãos. No volume das coxas. Nos dedos. As mãos e os dedos — e Jaime Ramos imagina como Esther Graydon toca e afaga um pénis. O peito, visto de frente e de perfil. O volume das coxas quando ela se levanta e anuncia que vai à casa de banho, deixando atrás de si um vazio ocupado por um perfume espesso e doce. Velho, velho, estás a ficar velho demais, muito mais do que Esther Graydon, que regressa daí a pouco ("Posso ir à casa de banho?") — ele observa de novo o volume das coxas e tenta adivinhar como será a sua roupa interior, por debaixo das calças, os jeans justos, as botas quase até aos joelhos, um calor de algodão claro, discreto, confortável. O que valoriza mais numa mulher?» (Um Gosto pela Imperfeição)




Retratos

«Estes são os pedaços que se reúnem ao longo de uma investigação, fotografias de casas abandonadas subitamente devido a uma morte inesperada, tão inesperada como a vida, um retrato tipo passe guardado numa carteira e recortado de um antigo cartão de estudante, nota-se nele o carimbo, o selo branco impresso num dos cantos a atestar uma veracidade que nunca mais regressará, papéis soltos e recolhidos com mérito e sem método, fotocópias de documentos oficiais, bilhete de identidade, passaporte, certidão de óbito, relatório da autópsia realizado horas depois de o corpo ser recolhido.» (As Duas Águas do Mar)




Rosa

«Muitas vezes, quando chega a casa, fica parado à porta (encostado à ombreira para disfarçar o cansaço) observando que Rosa desceu do terceiro andar e se serviu da sua chave: está sentada à mesa da cozinha, ou deitada no sofá da sala, ou arruma jornais velhos e despeja um cinzeiro que ficou na varanda. Ele recorda-a a caminhar sobre a areia da praia, à noite; a percorrer os corredores do supermercado, desorientada; a comprar-lhe roupa de que não gostava muito mas que iria usar, camisas aos quadrados, meias, boxers, t-shirts de cores suaves (ele só usava cinzentas, pretas ou brancas); a conduzir o velho Golf que Jaime Ramos queria conservar até à idade da reforma; a planear uma viagem de férias (Cabo Verde, Brasil, Roma); a escolher a comida de uma travessa — para ele; a servir-lhe um whisky generoso minutos depois de lhe dizer que o álcool não é bom para a saúde: "Por que é que gostaste de mim?", ela escolhendo a sobremesa. «Porque gostava de comer ao pé de ti.» (Um Gosto pela Imperfeição) «Mas ele sabia que aquela mulher tinha salvo a sua vida e lhe trouxera uma memória, uma música, até algumas obrigações que o faziam parecer um homem civilizado e com algum sentido de disciplina, delicadeza e honra. Tudo o que não têm a ver com o amor, mas a que o amor obriga. O amor salva-nos da solidão, mas Jaime Ramos achava que era preferível Rosa protegê-lo da sordidez ou da maldade, ou do frio, ou da falta de cuidado — Nós devemos ser cuidadodos, disse ela. Nós devemos esperar pelos dias de chuva. Devemos esperar pelas manhãs de sábado, as melhores. Devemos esperar a chuva depois da trovoada. Rosa salvara-o do inverno.» (Um Gosto pela Imperfeição) «Rosa insistira em fazer dele, não um homem culto, mas alguém preparado para reconhecer a beleza das bibliotecas, o tormento das coisas desconhecidas ou a passagem do tempo.» (O Colecionador de Erva) «Rosa acompanhara-o nesses dias em que estivera no hospital. Ele conhecia a doçura da gratidão. Não conhecia o amor, nunca falara de amor, nunca pronunciara as palavras que vira no cinema, nos livros, nos outros; ele estava grato a Rosa, sorria quando ela entrava no quarto do hospital e lhe trazia jornais, uma empada de galinha, cartas que tinham chegado à sua caixa de correio, um disco novo para ele ouvir durante a noite. Por vezes, ela adormecia no pequeno sofá onde as visitas se sentariam, ao lado da cama. Ele ficava desperto, olhando-a, reparando como uma ruga nascera naquele rosto, como alguns fios de cabelo branco tinham aparecido, como as mãos ficavam pendentes sobre o corpo adormecido. E o tempo passava sem ruído.» (O Colecionador de Erva)




Solidão

«Ele era um homem sozinho, apesar de Rosa.» (O Mar em Casablanca)




Detective Jaime Ramos by Francisco José Viegas