Lugares

Bulgária

«Ele imaginara a Bulgária antes de lá ir: montanhas negras, cidades escuras e um ponto luminoso a apoderar-se do mar Negro.» (O Mar em Casablanca) «Jaime Ramos não voltaria da Bulgária para fazer a revolução. Limitara-se a acompanhar Emília até Sófia, a partir de Lisboa e de Paris, e de Sófia a viajar num avião mais pequeno até ao anfiteatro monumental diante do Mar Negro.» (O Mar em Casablanca)




Caracas (Venezuela)

«Saudades de Caracas. A esta distância, ele pressentia – como se estivesse lá – os primeiros dias de uma Primavera ligeira, perfumada, atravessando a cidade rodeada de montanhas e limitada pelo Cerro El Ávila. Seria a Primavera de Caracas. Não há Primavera em Caracas: apenas reflorescem os jacarandás da Candelária, as árvores frondosas e descuidadas da Plaza Bolívar.» (O Mar em Casablanca)




Chaco (Argentina)

«Tudo o resto no Chaco, em Corrientes ou em Resistencia, lhe provocava uma espécie de náusea profunda – desde a comida à política, dos homens (que ela achava feios, na sua maior parte descendentes de índios) à qualidade do ar, que era seco e tórrido no Verão, pestífero no Inverno.» (O Mar em Casablanca)




Douro (Portugal)

«A sua adolescência fora passada nos cumes sobre o Douro, nas alturas das serras, onde nevava e caía geada sobre as hortas e os lameiros que ele atravessara em madrugadas de caça ou, muito mais novo, para guiar os bois até um curral. Se se concentrasse o suficiente, ouviria o estampido de um disparo numa dessas madrugadas de caça.» (O Mar em Casablanca) «Nasci atrás daquele monte, o mais escuro, o que já não tem vinhas nem árvores para arder. A minha aldeia está ali.» (O Mar em Casablanca)




Guiné

«Eu era um homem das montanhas que tinha redescoberto a morte na Guiné. Volto sempre a isso, eu sei, volto sempre ao mato, à poeira, aos pântanos da Guiné, aos areais batidos pelo vento a caminho de Casamansa, aos soldados bêbedos que, sem saber, tinham desertado há muito tempo mas que continuavam a combater. Às vezes, de noite, ainda oiço as rajadas secas de G3, as hélices dos helicópteros, o ruído dos Fiat sobrevoando os pântanos, aproximando-se do mar. Depois disso fui comunista por obrigação, como uma recusa e uma queda pelo abismo.» (O Colecionador de Erva)




Luanda (Angola)

«Luanda é um mundo extraordinário. As coisas que estão perto do fim, o risco de azul sobre a baía de Luanda, os rumores, as chuvas, os aviões. Sobretudo o ruído dos aviões, de madrugada. A primeira imagem é a de Luanda ao amanhecer. Baía, mar, luzes da cidade; a primeira luz do dia filtrada pelos coqueiros; um carro que passa restinga e se aproxima da ponte que liga a cidade à sua ilha transformada em península. A luz rente à estrada, exactamente a da transição da noite para o dia, o voo de um flamingo na praia. Cinco da manhã, diz o homem no rádio.» (Longe de Manaus)




Pocinho (Portugal)

«Sabe o que disse o criador do Barca Velha quando lhe propuseram ir viver para o Pocinho, aqui no Douro? Que se quisesse viver em África então ia para Luanda, que sempre tinha mar. O mar é uma invenção minha, acho que ele não disse nada sobre o mar. Limitou-se a considerar o que sabia: cinquenta graus no Verão. É o Pocinho, onde se produzem hoje os melhores vinhos do país. O calor do inferno vem de lá. O ar abafado, o calor insuportável durante três quartos do dia.» (O Mar em Casablanca)




Portugal

«O resumo do antigo regime. Um país que produz muito pouco além de comerciantes, famílias ilustres, apelidos e casas de férias. O mal português é esse, o incesto. A endogamia. Banqueiros cujas filhas mais novas casaram com rapazes que dançavam bem nos anos setenta. Depois, os rapazes envelheceram e casaram com outras mulheres mais novas e ligeiramente mais tontas, mas conservaram a marca de origem. Filhos que receberam um apelido e que mais tarde entraram nos quadros do banco ou voltaram a casar com uma mulher que leva no nome qualquer coisa como Companhia Limitada. Sociedade Anónima. A mesma coisa há duzentos anos. Um avô que foi ministro da República e afilhado de um ministro da Monarquia. Uma avó que teve um amante diplomata em Roma. Temos os arquivos cheios de casos assim. Adolescentes que se conheceram no picadeiro, montando cavalos que também já são cruzamento entre famílias. Férias em Moledo, passeios no rio Minho, estadas no Algarve. Não. O Algarve é mais recente, é uma coisa recente. O Algarve é uma coisa do tempo de depois do ié-ié, do biquíni autorizado pela família, do tempo do segundo ou do terceiro divórcio quando a moral deixa de ser a porta de entrada e é só um corredor, uma passagem, uma genuflexão. Havia tios poderosos, ministros e subsecretários de Salazar que passavam férias com um criado ao pé do telefone. Salazar podia telefonar, se bem que Salazar nunca telefonasse. Sua excelência não gastava dinheiro em telefonemas – escrevia cartas, não tinha a febre da velocidade.» (O Colecionador de Erva)




São Paulo (Brasil)

«Tudo se perde em São Paulo. A gente se perde em São Paulo. Paulista se perde em São Paulo. (LdM) Em São Paulo mata-se bastante. Esta cidade, Ramos, como hei-de explicar-lhe?, é uma cidade onde se mata com alguma facilidade. Durante anos, os bispos da América Latina e outras figuras da igreja, sobretudo jesuítas espanhóis, no século XVIII, pediram ao papa para autorizá-los a destruir a cidade. O papa não deixou, apesar de as acusações serem graves. Eles diziam que se vivia aí a maior imoralidade. Que havia índios escravizados e heréticos europeus, que a lei de Deus não era respeitada.» (Longe de Manaus)




Ushuaia (Argentina)

«O cenário, por mais que se inventasse, não era muito diferente do do Chaco: cavalos nas pastagens, gado recolhido entre cercas que delimitavam terrenos de dezenas de quilómetros ao longo de estradas que vinham do deserto. Adela chegou a Ushuaia depois de ter passado três dias em Comodoro Ribadavia porque o navio precisava de abastecer-se e – dizia-se – porque era preciso substituir o capitão, um alcoólatra porteño que dormia a sesta no convés, mesmo quando chovia ou os ventos da Península Valdés transformavam o mar num terreno de guerra.» (O Mar em Casablanca)




Detective Jaime Ramos by Francisco José Viegas