Afinidades Electivas

Blusão

«Despiu-se com método. Começou por despir o blusão e pendurá-lo no cabide à entrada de casa. Descalçou-se, já sentado na beira da cama. Despiu a t-shirt com que normalmente dormia, puxou pelas calças, soerguendo-se, despiu as cuecas, tirou as meias, que deixou alinhadas junto dos sapatos, sempre com a Cogiva entre os lábios, consumindo-se lentamente como a única presença viva naquela casa, porque ele não se sentia parte de nenhuma vida, de nenhum dia, de nenhuma história.» (Um Céu Demasiado Azul)




Bonaparte

«Chefe, o brasileiro, o advogado, deixou-lhe um recado. E que diz o recado, Isaltino? Encontra-se consigo na Foz, no Bonaparte. O Bonaparte é o meu bar. Eu sei, mas eu conheço o chefe há muitos anos. Ele parece que já descobriu, chefe. Deve ser por ser brasileiro.» (Um Crime Capital) «Há quantos anos conhecia este bar? Há quantos anos se sentava ao balcão do Bonaparte, a horas desiguais da noite, depois do crepúsculo, diante do mar da Foz? Há quantos anos conhecia Jorge Alonso, o dono do bar? Quantas vezes Alonso o amparou até à porta e, com o braço estendido, lhe mostrou o lugar onde estacionara o carro, junto do separador relvado a meio da Rua do Brasil?» (Longe de Manaus) «Ao fim da tarde, o Bar Bonaparte era mais do que um refúgio silencioso e tépido quando começavam os dias de calor; Jaime Ramos passara ali grande parte dos seus anos de homem solitário e perseguido pelo remorso, protegido por aquilo que julgava ser a sabedoria de Jorge Alonso, proprietário discreto e compreensivo, que nos anos setenta comprara o bar a Sean O'Gradey, um irlandês que trabalhara a vida inteira no comércio do vinho do Porto, sem enriquecer nem empobrecer até se ter retirado para Dublin.» (Um Gosto Pela Imperfeição)




Cerveja

«Depois de levar três grandes sacos de plástico negro para o contentor do lixo, na rua, tomou um duche e preparou aquilo que decidira que ia ser a sua recompensa – abriu de facto a cadeira de lona amarela na varanda e trouxe uma garrafa da sua cerveja preferida, uma Dos Equis mexicana, parte de uma prenda que Jorge Alonso, o dono de um bar irlandês na Foz, lhe oferecera – uma dúzia – no início da primavera. Abriu-a e contemplou por instantes o líquido através do vidro escuro, antes de a servir para um copo, porque sabia que beber uma cerveja é um risco sem cálculo, um atrevimento e uma afronta – é necessário pensar, antes, numa tradição de fazer a cerveja, de apurar a sua fermentação, de imaginar o tempo exato de frio a que a bebida deve ser submetida antes de ser servida.» (Um Céu Demasiado Azul) «Alonso vestira o casaco e desceu as escadas do bar, deixando-o sozinho, a pedir uma cerveja clássica, vagamente amarga, apenas vagamente – uma ruiva. "As ruivas fazem parte da minha história pessoal", podia dizer. A ruiva pecaminosa, a ruiva desvairada, a ruiva turbulenta, a ruiva obsessiva que atravessa o palco em busca da tempestade, a ruiva dos filmes, a ruiva dos livros. Não sabia se era mesmo assim: tinha conhecido ruivas angélicas. E gostava de cervejas ruivas, despedindo-se do caramelo, deixando escorrer gotas de água pelas paredes exteriores do copo.» (O Mar em Casablanca) «Ele pensava tudo isto enquanto bebia uma Bush Ambrée, no seu copo largo e redondo, a cerveja que reservava para as suas idas solitárias ao Bonaparte, aproveitando o seu travo doce, final, a frescura do seu coração frio, o rasto de caramelo perdido entre fermentações antigas.» (Longe de Manaus)




Charutos

«Jaime Ramos descalçou os sapatos, usando o pé esquerdo para retirar o direito, e o calcanhar do direito para empurrar o do pé esquerdo. Depois, estendeu a mão para a caixa de charutos e escolheu um Gloria Cubana de Miami, uma imitação perfeita do Medaille d'Or cubano, maduro como o próprio sol dos keys da Florida. Passeou-o pelos dedos, rolando-o com lentidão e desenhando na sua própria mão as nervuras das folhas da capa do charuto, até que o tubo de tabaco se assemelhou a uma extensão do seu corpo, participando nele como numa necessidade e, até mais do que uma necessidade, assemelhando-se a uma urgência sentida em algum lugar do corpo.» (Um Crime na Exposição) «Abriu a caixa e retirou um charuto, um Hoyo de Monterrey Epicure n.º 2. Tivera um almoço ligeiro, ainda não fumara e sabia que, pelo menos durante uns tempos, teria de fumar às escondidas, como um homem a envelhecer diante dos que ficam atrás, saudáveis e eternos, tratando da sua saúde e da sua eternidade. O Epicure n.º 2 delimitava o que era e não era um doble corona, e apreciou o seu volume, a sua humidade, a sua memória, a sua fragilidade, a sua capa oleosa e macia que o transportava a outro tempo ou a outro lugar, um lugar onde havia sol e a noite começava lentamente. Acendeu-o com um fósforo que primeiro deixou arder até metade. O primeiro fumo falava. Escutou aquela voz profunda, imaterial, que trazia consigo um resto de açúcares vagueando pelo pequeno espaço da varanda, aspirou o ligeiro aroma de árvore que transportava a sombra original da sua terra. Depois, um tom de cacau e de terra húmida navegou à sua volta. E ele esperou que alguma coisa acontecesse enquanto estava naquele esconderijo.» (O Mar em Casablanca) «Durante aqueles instantes, Jaime Ramos sentia uma paz reconfortante, burguesa, afectuosa, pacificada pela comida e pelos aromas que vinham da cozinha do restaurante, pelos dedos de uma mulher que procurava os seus, e por aquele fumo maduro e perfeito, amarelado, que contrastava com o sabor amargo e belicoso dos seus charutos comuns, de capa negra, setenta e oito euros a caixa de vinte e cinco robustos Estrela.» (Longe de Manaus) «Mas Jaime Ramos gostava de charutos demasiado húmidos, maduros, de tabaco amargo e com capa escura. Fumava apenas três ou quatro habanos por mês, depois de um jantar especial. A sua reserva de Ramon Allones variava bastante ao longo do ano e quando havia menos de dez churchill na caixa habitual, guardada na despensa, sem luz, um humidificador artesanal que trouxera do México, inventava um motivo para ir a Vigo, à El Mundo dei Puro, Ultramarinos SA. Escolhia os com cuidado, mas sem prolongar muito o acontecimento.» (Longe de Manaus)




Cinema

«Deve haver instituições que não se criticam. Não digo que seja Deus, Pátria e essa treta. Não. Mas é John Ford. Não, não gosto que ele tivesse criticado assim John Ford.» (As Duas Águas do Mar) «E havia uma coleção de vídeos que foram sendo ultrapassados e substituídos por DVD, Forte Apache, Rio Bravo, uma coleção de discos que só eram escutados algumas vezes por ano, Augustín Lara, José Alfredo Jiménez, Ary Barroso, Ruben Blades, livros que resistiram a todas as tentativas de suicídio, quase nada se comparados com os milhares arrastados pela biblioteca de Rosa.» (Longe de Manaus)




Cubillas e Boleros

«Isaltino de Jesus acompanhou esse período tentando convencê-lo de que tinha chegado a altura de deitar fora uma série de recordações de vários anos, fotografias penduradas na parede, entre as quais um retrato de Cubillas autografado pelo próprio jogador peruano, duas garrafas vazias (uma de xerez D. Pepe e outra de cerveja mexicana, recordação de uma viagem), uma caixa de charutos Cuaba e outra de Trinidad, a capa de um disco de boleros de Agustín Lara e de Cuco Sánchez, reunidos para glória de canções velhas como ele próprio, entre outras velharias, como recados que outrora tinham sido pendurados na parede ou bilhetes de futebol e de cinema.» (Um Crime Capital) «O retrato gigante de Cubillas fora transportado de gabinete em gabinete (era um poster do Norte Desportivo, de 1973) até ser consumido nos cantos por várias camadas de fita adesiva, mas era a imagem que acompanhara o inspetor Jaime Ramos em todas as etapas da sua vida profissional, mais do que os diplomas de cursos de especialização ou os louvores, que guardava nas gavetas como testemunhos de pequenas indignidades cometidas para salvar a pele e o emprego.» (O Mar em Casablanca) «Jaime Ramos voltou-se e enfrentou a parede nua ao seu lado, como se fosse a mesma onde Teofilo Cubillas sorria há muitos anos, e se não era nessa parede seria noutra, no seu antigo gabinete, mas ele lá estaria, Teofilo Cubillas, como uma memória dos anos que não regressam e das vezes em que mudou de gabinete e em que subiu na hierarquia. O poster foi perdendo as cores, era agora uma mancha de azul, branco e cinza colada à parede, Cubillas erguendo os braços, sorrindo depois de marcar um golo. Podia recordar muitos outros golos, o inspector Jaime Ramos, mas aquele bastava-lhe, era o único que transportara consigo de gabinete em gabinete, de sala em sala, de inquérito em inquérito, de um Verão para o começo de cada Inverno, e durante muito tempo poderia murmurar se, ah, ele sabia, sim, podia murmurar se «ali vem o inspector Ramos com o seu golo de Cubillas.» (Longe de Manaus)




Douro

«Na margem sul, tu sabes, é a Beira. Na Beira há assados, guisados simples, e sopas, muitas sopas para derreter o frio. E há aqueles sabores de que não gosto, o da amêndoa nas costas do Côa, a terra é mais seca de verão, mais triste. No Douro, na margem norte do Douro, há outra perspetiva, acompanhas as vinhas que descem para o rio como se fossem aí buscar qualquer coisa. Isto até ao Pinhão, depois de passares o Tua. Depois fica tudo igual, eu sei. Mas é aí exatamente que começa a comida de que eu gosto. E é aí a tua terra, esse é o ponto. Esse é o ponto. A gente deve defender um lugar mesmo que não tenha argumentos, e então, deve inventar um ou dois imbatíveis. Acabei de fazer isso mesmo.» (As Duas Águas do Mar) «Rosa adormecera. Caíra o silêncio quando o carro cruzou a ponte sobre o Douro e atravessou a primeira aldeia, primeiro Foz do Sabor, depois o Pocinho, depois luzes erguidas nas falésias de xisto do outro lado, Lousa, Santo Amaro, Mós, depois Foz Côa. Um cheiro de vinha, doce, vindo do fundo dos vales, o adeus ao deserto, pombais nas colinas, restos de céu rosado, ondas de calor que sobravam do dia. Miradouros. Ermidas abandonadas, em ruínas.» (Longe de Manaus)




Detective Jaime Ramos by Francisco José Viegas